LEUCEMIA

Medicina de precisão pode melhorar atendimento à pacientes com leucemia, diz médico catalão

Em entrevista ao EFESaúde, o professor Francesc Bosch falou sobre a evolução das pesquisas médicas para tratamentos menos invasivos e mais customizados.

  • Foto: Divulgação/Hospital Hall D'Hebron. Foto: Divulgação/Hospital Hall D'Hebron.
Foto: Divulgação/Hospital Hall D'Hebron.

A leucemia crônica é um tipo de câncer que atinge homens e mulheres adultos, com mais de 55 anos, causada pela rápida produção de glóbulos brancos no sangue, isto é, o aumento dos neutrófilos e linfócitos.

Assim como a pressão arterial, quando se descobre que se é portador da leucemia crônica, não há um processo de cura, mas tratamentos rotineiros e que irão acompanhar a vida do paciente para estabilizar e controlar a doença.

Existem quatro tipos de leucemia crônica que atingem uma média de 5 a cada 100 mil habitantes, dependendo da região. Por atingir o sistema linfático, é encontrada no sangue da medula óssea.

Esse tipo de câncer tem progressão lenta e pode ser causado pelo excesso de proteína BCL-2. Esta proteína evita a apoptose ou morte programada de algumas células, incluindo linfócitos. Apoptose é um processo natural e benéfico, por isso o seu bloqueio pode resultar em um crescimento celular desenfreado a ponto de se transformar em leucemia crônica.

Por ser uma doença descoberta, muitas vezes, em “diagnósticos de causalidade”, a leucemia crônica surpreende e assusta os pacientes. No entanto, segundo o médico Francesc Bosch, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e Espanha e chefe do departamento de Hematologia do Hospital Universitário Hall D’Hebron, da capital catalã, os avanços tecnológicos e a medicina mais detalhista e individual podem auxiliar na eficiência dos tratamentos para calar a ação das células cancerígenas.

A leucemia crônica é qualificada assim porque, segundo Bosch, “cada pessoa tem uma forma de manifestar a doença”, sendo estáveis para alguns ou com aparecimento de sintomas variados para outros.

De acordo com o professor, se avançou muito nas pesquisas desta doença, porque atualmente a biologia de cada organismo é de fácil acesso dos médicos graças às tecnologias.

“Temos unido o que conhecemos de biologia com novos tratamentos. Conhecemos alvos da doença que podemos atacá-la e tratá-la e há uns sete, dez anos tivemos muitas investigações para desenvolver novos tratamentos, combinação de novos tratamentos, o que resulta em enorme esperança para os pacientes”, disse ao EFESaúde.

Para ele, a medicina de precisão – que é uma tendência médica – é uma das formas mais ideais para se aproximar e definir o melhor tratamento dos pacientes. “Isto se baseia em conhecer cada paciente e dar a cada um deles um tratamento específico de acordo com suas características, portanto cada vez é preciso fazer um esforço cada vez maior e conhecer como é a genética dessa doença e, com base nisso, dar o melhor tratamento”.

Bosch acrescenta que esse tipo de conduta médica, embora caro, pode ser implementado em sistemas públicos de saúde a partir de cooperação entre hospitais e pesquisadores. Na Espanha, as coletas de sangue para análises são feitas em hospitais regionais, menores, que passam para os hospitais centrais para estudos e dignósticos, que serão devolvidos aos pacientes em até duas semanas, uma espécie de “iniciativas de redes de networking”.

Evolução

“A evolução da leucemia linfoide crônica é muito heterogênea, cada paciente tem um comportamento muito variável. Há cerca de 40% de pacientes que identificamos que nunca vão necessitar tratamento. Se diagnostica a doença por casualidade, seguimos, a enfermidade está estável e estes pacientes vão falecer de outros coisas que não são a leucemia crônica. O resto dos pacientes, ao longo da evolução da doença vão começar a ter sintomas e manifestações da enfermidade e para estes damos tratamento”, explicou.

Ele conta que muitos pacientes se assustam ao saber que não necessitam tratamento, justamente porque não há benefícios de tratar antes de aparecerem sintomas, já que todos os medicamentos “tem toxicidade” e não é necessário adiantá-los.

“Hoje temos tratamentos fantásticos e este é o tipo de câncer que mais progrediu em termos de avanços médicos nos últimos anos, mas nenhum deles cura, mas conseguimos controlá-la e deixar o paciente sem nenhum sintoma, bem, às vezes recebendo tratamento, às vezes não, mas tendo uma vida normal, por isso se chama crônica”, acrescentou.

De acordo com Bosch “é como ter pressão alta ou diabetes”, em que não há cura, mas há tratamentos eficientes.

Tenho leucemia crônica, vou morrer?

De acordo com o professor, os tratamentos e o acompanhamento médico garantem vida saudável ao paciente com leucemia crônica que descobriu a doença ainda em seu início. Quando se tem a descoberta por meio da aparição de sintomas ou até hemorragias, o paciente deve procurar um médico urgentemente para a avaliação mais detalhada e escolha de tratamentos mis intensivos.

Em geral, a quimioterapia e algumas pastilhas diárias são os métodos de tratamento mais comuns para esse tipo de leucemia, também tratada como leucemia de adultos.

Tratamentos para Leucemia

Entre os tratamentos mais comuns estão observação atenta, quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo e transplante de medula. Mas, no caso da crônica, estes tratamentos compõem hábitos para uma vida sem sintomas da enfermidade, embora não sejam usados como métodos de cura.

Medicamentos

No mês de julho, a ANVISA aprovou o primeiro inibidor de BCL-2 que, pelo seu mecanismo de ação única leva às células do tumor à morte. O venetoclax, que já é aprovado na União Europeia e outros países da América Latina, está sendo utilizado em diferentes casos para o aprimoramento do método. No Brasil, a companhia biofarmacêutica AbbVie conduz 12 estudos clínicos em fase final de desenvolvimento em oncologia e conduzido por 50 equipes de pesquisadores de todo o país.

Pesquisas

Bosch destaca que há cooperação entre Brasil e Europa nas pesquisas e estudos, ainda que haja diferenças de acesso aos medicamentos, por exemplo, para testes.

“Estados Unidos e Europa têm acesso mais rápido, ainda que os medicamentos sejam caros. E em outros países o acesso é mais difícil. Eu vejo muito ânimo no Brasil, muita gente jovem que vão a nossa instituição aprender, que tem interesse e que nos perguntam para melhorar os tratamentos dos pacientes brasileiros e creio que este é um país que está crescendo no ânimo de pesquisas”, destacou.

Para ele, as autoridades brasileiras “já tomaram consciência” da importância de investir em pesquisas de saúde, “que é o que de fato importa para a sociedade”.

“Não é importante ter tanques e exércitos, mas sim saúde para viver o melhor possível e as autoridades estão investindo nisso, como se nota no Brasil”, ressaltou o professor que apresenta três palestras no Congresso Brasileiro de Hemoterapia e Terapia Celular (HEMO 2018), que acontece em São Paulo até esta sexta-feira (2).

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