AIDS

Ex-presidente da Gâmbia é denunciado por falso tratamento para cura da Aids

Para a organização AIDS-Free World, a suposta cura de Yahya Jammeh é um dos mais “atrozes” ataques contra os doentes de Aids registrados na história.

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EFE/ Arquivo

As vítimas de um falso tratamento de cura de Aids criado pelo ex-presidente da Gâmbia Yahya Jammeh denunciaram o ex-chefe de Estado pelo o que consideram uma experiência “humilhante” e um atentado contra a dignidade.

“Estávamos deitados em uma cama, virtualmente desnudos – só com uma toalha – e às vezes nos mostravam na televisão sem o nosso consentimento. Fomos alvo de massagens corporais por parte do presidente e tomamos bebidas de ervas”, contou à Agência Efe Ousman Sowe, um dos denunciantes.

Ele é um entre mais de cem pacientes admitidos no programa de cura que Jammeh lançou em 2007, mas, devido à estigma que acarreta a exposição perante o público no país, nenhum deles tinha se atrevido a empreender ações legais.

Nesta semana, junto a outras duas vítimas – Fatou Jatta e Lamin Ceesay – Sowe interpôs uma denúncia contra o ex-presidente gambiano (1996-2017) perante o Supremo Tribunal de Banjul.

Os três pedem uma reparação econômica pelos danos sofridos e o reconhecimento de que seus direitos foram violados pelo homem que controlou o poder na Gâmbia com mão de ferro durante mais de duas décadas, agora exilado na Guiné Equatorial.

Em janeiro de 2007, após anunciar que podia curar a Aids, Jammeh confinou centenas de pacientes que tinham aceitado o convite a serem tratados em dependências estatais sob a vigilância de guardas armados.

Então, Sowe era o presidente da rede de sociedades de apoio contra a Aids da Gâmbia, o que fez com que fosse quase impossível rejeitar o convite do autoritário regime.

“Foi uma ordem, obedecemos uma ordem executiva. Se soubesse como seria o tratamento e tivesse opção, não teria aceitado”, afirmou.

Durante a orientação prévia, os pacientes eram coagidos a deixar o álcool, o tabaco e as relações sexuais e, especialmente, os remédios anti-retrovirais.

O que seria um tratamento de um dia, durou para Sowe cerca de sete meses, forçado a permanecer com o resto de doentes e com visitas restritas das famílias.

Em julho de 2007, Jammeh declarou o grupo do qual Sowe fazia parte curado e permitiu que voltassem para suas casas.

No entanto, ele foi preso e forçado a trabalhar como enfermeiro para os seguintes rodízios de pacientes.

Jatta, companheira na denúncia, esteve perto de morrer após nove meses internada, dado que o seu sistema autoimune colapsou e teve que voltar a tomar os anti-retrovirais.

A demanda destas três vítimas de Jammeh – a primeira que entra nas Cortes gambianas pelos abusos cometidos desde o poder – conta com o apoio da organização AIDS-Free World e do Instituto para os direitos humanos e o desenvolvimento na África (IHRDA, por sua sigla em inglês).

Para Sarah Bosha, uma das especialistas legais da AIDS-Free World, a suposta cura de Jammeh é um dos mais “atrozes” ataques contra os doentes de Aids registrados na história.

“Não há cura para a Aids. Quando um indivíduo de grande poder diz o contrário, a saúde humana fica em perigo e as vidas são cerceadas.

Uma epidemia mortal se prolongou só para servir ao ego insaciável de Yahya Jammeh, um dos piores vilões dos tempos modernos”, indicou Bosha à Efe.

Jammeh governou esta pequena nação da África Ocidental durante 22 anos marcados por várias violações dos direitos humanos.

Foi derrotado nas eleições em dezembro de 2016 pelo candidato opositor Adama Barrow, que segue na Presidência.

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Publicado em Doenças e Tratamentos

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