SAÚDE MENTAL

Coletivo abre campanha contra o uso de correias nos centros psiquiátricos da Espanha

A contenção mecânica é uma prática comum nas unidades psiquiátricas espanholas e consiste em amarrar uma pessoa na cama utilizando correias.

  • Imagem cedida pela campanha 0contencionesImagem cedida pela campanha 0contenciones
Imagem cedida pela campanha 0contenciones

Em 1940, a pintora inglesa Leonora Carrington foi internada em um manicômio na cidade espanhola de Santander, onde ficou amarrada numa cama durante vários dias, deitada sobre seus próprios excrementos. A história de Carrington foi narrada pela premiada escritora mexicana Elena Poniatowska no romance “Leonora” e na autobiografia “Down Below” escrita pela pintora. Embora a terrível experiência vivida por Carrington tenha acontecido há quase 80 anos, atualmente profissionais da saúde mental continuam amarrando pacientes nos centros psiquiátricos da Espanha. É o que denuncia o coletivo Locomún, que está realizando uma campanha contra a contenção mecânica.

O objetivo da campanha #0contenciones (#0contenções, em tradução livre), lançada em junho deste ano, é sensibilizar a opinião pública, denunciar a prática como uma vulneração dos direitos humanos e exigir uma normativa específica para proibí-la no país. Além disso, o coletivo pretende divulgar medidas legais para evitar que novos pacientes passem por esta experiência e implicar cada vez mais profissionais da saúde mental na campanha.

Imagem cedida pela campanha

Mas, o que é contenção mecânica?

A contenção mecânica, também chamada imobilização terapêutica, consiste em amarrar uma pessoa na cama utilizando correias. Locomún explica que a contenção é algo usual nos centros de psiquiatria da Espanha. O objetivo deste método seria evitar que o paciente se machuque ou machuque outras pessoas. O coletivo, no entanto, denuncia que a imobilização não é uma prática terapêutica, mas sim uma medida coercitiva.

Nos centros psiquiátricos normalmente é mais importante manter a ordem e controlar a conduta dos internos do que oferecer um atendimento que respeite os direitos humanos”, afirmou a psicóloga Sara Toledano, que faz parte de Locomún.

O coletivo também denuncia que, em 2017, duas pessoas morreram em hospitais das pequenas cidades espanholas de A Coruña e Oviedo por causa da contenção mecânica. De acordo com os ativistas, existe uma grande opacidade em relação aos dados oficiais de mortes causadas por esta prática nas unidades de psiquiatria do país.

Em um relatório publicado em 2013, o argentino Juan E. Méndez, que foi relator especial da ONU sobre tortura, recomendou a proibição de métodos de imobilização nas instituições psiquiátricas. No documento, ele afirmou que não há justificativa terapêutica para esta prática, considerada pelo coletivo como uma forma de maltrato disfarçada de necessidade médica. Para a enfermeira Ana Carralero, que também faz parte de Locomún, “as vulnerações de direitos humanos, como a contenção, repercutem diretamente na saúde mental dos pacientes”.

Imagem cedida pela campanha. Autora: Nisa

Estive amarrada na cama durante três dias, eu tinha só 21 anos. Minha mãe morreu três meses antes de minha internação e eu estava em estado de choque, em plena crise, sem entender o que estava acontecendo, desorientada, perdida… No hospital eles me trataram com muita agressividade. Tiraram minha roupa, me deram uma injeção e me amarraram”, contou Rebeca em um dos muitos depoimentos divulgados pelo coletivo para sensibilizar a opinião pública sobre o tema.

Fernando Alonso, ativista de Locomún, revelou que não lhe amarraram durante o tempo em que esteve internado porque uma enfermeira disse que ele se parecia com seu filho. Uma simples coincidência salvou Alonso de passar por uma experiência traumática. Para ele, as medidas coercitivas são inconsistentes com os princípios assistenciais da prática clínica.

Os profissionais de centros médicos não deveriam realizar funções relacionadas com a coerção ou a custódia, porque ambas estão desvinculadas do cuidado e do acompanhamento que as pessoas que buscam os serviços de saúde mental merecem”, explicou o ativista.

Contenção mecânica no mundo

Há países, no entanto, onde a contenção mecânica é proibida e outros onde houve uma redução significativa desta prática. Na Islândia, por exemplo, há uma lei que proíbe categoricamente a imobilização.

Na Holanda e na Finlândia existem programas para a redução do uso dessas medidas coercitivas e no Reino Unido existe um código que não permite que profissionais de unidades psiquiátricas de hospitais utilizem este método.

Além disso, há campanhas similares a do coletivo Locomún em diferentes países como “No restraint” no Japão, “E tu slegalo subito” na Itália e “Non a la Contention” na França.

Imagem da campanha E tu slegalo subito. Autor: Fabio Visintin

A situação no Brasil

A lei 10.216 de 6 de abril de 2001, também conhecida como lei da Reforma Psiquiátrica, redirecionou o modelo de assistência no Brasil e garantiu direitos para as pessoas com transtornos mentais. A partir da reforma, surgiram os chamados Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico e aos espaços manicomiais, que ainda existem. De acordo com o enfermeiro Gustavo Menezes, nesses centros a equipe de profissionais contrói, junto com os usuários, um espaço de respeito e cuidado.

Ao invés de contenção, oferecemos continência”, afirmou Menezes, que também é professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele explicou que quando um usuário expressa sofrimento, a equipe deve escutá-lo e ser capaz de “compreender o sujeito em seu território existencial”. Para isso, é necessário oferecer um serviço horizontal, onde todos são responsáveis pelo processo de cuidado. Para Menezes, criar um vínculo entre a equipe e o usuário é essencial para evitar métodos como a imobilização. Ele revelou que jamais presenciou uma contenção física ou mecânica nos CAPS. No entanto, ao revisar prontuários de hospitais psiquiátricos, detectou condutas coercitivas.

De acordo com o enfermeiro, essas condutas acontecem porque nesses centros a relação entre a equipe e o paciente é mais distante. Além disso, a maioria dos pacientes entram nos hospitais de forma involuntária.

Menezes acredita que a contenção mecânica e física deveriam desaparecer. “Não falo isso no sentido utópico. Trabalhei seis anos em um CAPS e minha equipe jamais utilizou métodos coercitivos”. Para Menezes, o sistema de saúde não deve conter, mas sim acolher os pacientes.

Imagem cedida pela campanha. Autora: Celia Vilas-Boas

Soltar as amarras

Me ataram nas duas vezes em que fui internada. Foi uma das experiências mais assustadoras da minha vida. Nos dois casos eles me amarraram assim que fui internada e permaneci dessa forma várias horas, sem poder me mover e sem poder mudar de postura na cama, com medo de deslocar o punho ou o tornozelo”, disse Amaya em outro depoimento divulgado na campanha.

Thomas Emmenegger, da Organização Socio-psiquiátrica de Ticino, explicou em um vídeo divulgado pelo coletivo espanhol que é possível fazer um bom trabalho de psiquiatria sem as contenções e com as portas abertas. “Precisamos chegar a uma nova psiquiatria baseada na relação e não na coerção”, defendeu o psiquiatra.

O coletivo Locomún surgiu em 2016 e é formado por profissionais da saúde mental, pessoas que foram internadas em centros psiquiáticos, usuários do sistema de saúde mental, familiares dos usuários e pessoas interessadas no tema. Desde que começou, a campanha #0contenciones já recebeu o apoio de associações de familiares, profissionais do setor, sindicatos e partidos políticos de diferentes regiões da Espanha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Login

Registrar | Perdeu sua senha?