ASSÉDIO

Leitura do Corão: um “tratamento médico” sob suspeita na Arábia Saudita

As autoridades sauditas estudam uma regulamentação devido a casos de violência e de assédio a mulheres.

  • mas infoAA010 GAZA (FRANJA DE GAZA) 14/06/09.- Un niño palestino lee los versos del Coran en Gaza, hoy 14 de junio del 2009, dentro de un programa de memorización apoyado por Hamas. Con unos 12,000 niños, chicas y chicos,divididos en grupos de 12, el programa dura 60 días. EFE/Ali AliLeitura do Corão: um “tratamento médico” sob suspeita na Arábia Saudita
Leitura do Corão: um “tratamento médico” sob suspeita na Arábia Saudita

É tradição na Arábia Saudita os curandeiros tratarem algumas doenças incuráveis e o mau-olhado através da leitura do Corão, mas esta prática agora está na mira das autoridades perante as crescentes denúncias de abusos.

Embora a legislação islâmica reconheça a leitura do Corão e das súplicas da Sunnah (a segunda fonte da lei islâmica depois do Corão) como tratamento para os doentes, as autoridades sauditas estudam uma regulamentação devido a casos de violência e de assédio a mulheres.

“Leio versículos corânicos a pessoas que não encontraram a cura nos hospitais. A maioria sofre de bruxaria ou mau-olhado por inveja”, disse à Agência Efe um curandeiro, que se identifica como xeque Abu Hassan.

É cada vez mais comum ver anúncios de praticantes desse método nas redes sociais e em páginas da internet repletas de ofertas de seus serviços. Mas esse não é o caso de Abu Hassan, que garante não recorrer à internet.

“Não preciso de mais propaganda. Não tenho capacidade de atender mais pacientes”, assegurou.

Hassan afirmou que não cobra pelo seu atendimento e receita alguns produtos que Maomé usou como tratamento natural, tais como mel, azeite de oliva e algumas sementes.

“O resto é charlatanismo e enganação”, disse Hassan, sobre a nova tendência de cobrar preços exorbitantes por estas leituras se aproveitando de que muitos muçulmanos são convencidos da efetividade do tratamento com o Corão.

Às vezes estas consultas são mais caras do que a de um médico. A clínica do curandeiro Adnan Tawfiq al Hashemi, por exemplo, recentemente aumentou seu preço de 100 riales sauditas para quase 500 (aproximadamente o mesmo valor em reais).

Aos poucos, essa técnica abriu as portas a charlatões e impostores, que chegaram até mesmo a abusar de mulheres ou usar a violência como tratamento. Por isso, o Ministério do Interior da Arábia Saudita realizou um estudo sobre estas práticas, para regulá-las ou, se for o caso, propor sua proibição.

O diretor da Organização da Promoção da Virtude e da Luta contra o Vício – uma espécie de polícia religiosa saudita -, Abdul Rahman Al-Sudais, advertiu este mês que irá vigiar os curandeiros para que não cometam infrações.

“A organização detectou má conduta de alguns curandeiros com relação às mulheres”, declarou Sudais à imprensa.

A polícia da moral possui, inclusive, uma unidade de luta contra a bruxaria e o charlatanismo. Somente em 2013, os agentes do setor detiveram mais de 500 pessoas de ambos os sexos por praticar o tratamento corânico infringindo a legislação islâmica.

Alguns crimes recorrentes denunciados através do relatório de 2013 são os de mulheres que foram alisadas, assediadas e até fotografadas pelos curandeiros como método de extorsão. Outras denunciam que apanharam durante os tratamentos e há casos de pacientes estranguladas até à morte.

Para o imã de uma mesquita de Riad, o xeque Saad al Ghamdi, este tratamento se transformou em “um meio de se aproveitar das pessoas e tirar o dinheiro delas”.

Ghamdi explicou que a legislação islâmica determina que o doente deve primeiro buscar o tratamento médico tradicional e, se não for curado, pode recorrer a um tratamento por si mesmo com o Corão, sem a necessidade de um curandeiro.

“As pessoas humildes, por ignorância, preferem um clérigo curandeiro que domine o livro e escolha os versículos adequados para o tratamento”, acrescentou.

Apesar de tudo, ele defende que a atividade não deveria ser proibida, mas sim regulada e que a vigilância seja reforçada sobre os que a praticam. Uma forma de conseguir isso seria conceder autorizações apenas para os que estejam devidamente habilitados.

Uma opção, em sua opinião, seria criar setores deste tipo de tratamento nos hospitais públicos e privados sob supervisão do Ministério da Saúde, ou criar clínicas especializadas com psicólogos.

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Publicado em Saúde de Gênero

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