INDÍGENAS CIÊNCIA

Indígenas isolados do Amazonas têm microbiomas resistentes a antibióticos

Os cientistas consideram especialmente surpreendente que o microbioma deste grupo indígena tenha genes resistentes aos antibióticos, já que acredita-se que os yanomami nunca estiveram expostos a antibióticos comerciais.

  • Foto: Davi Mario Vilela/Amazônia RealFoto: Davi Mario Vilela/Amazônia Real
Foto: Davi Mario Vilela/Amazônia Real

A população indígena yanomami que habita o Amazonas da Venezuela sem contato externo tem um microbioma com o nível mais alto de diversidade bacteriana já registrado em um grupo de seres humanos e genes resistentes a antibióticos, segundo um estudo publicado nesta sexta-feira pela revista “Science”.

“O que sugere esta descoberta é que desde os passos muito adiantados da transculturação, os humanos perdem diversidade de microorganismos por práticas antibacterianas como antibióticos, parto por cesárea, sabões, ou flúor dental”, disse à Agência Efe uma das pesquisadoras, a venezuelana María Gloria Domínguez-Belo.

“Agora temos que averiguar quais são os organismos perdidos e qual era sua função, e se seria útil recuperá-los. Estas revelações nos ajudam a entender onde estamos em relação com o que tinham nossos ancestrais”, acrescentou a microbióloga da Universidade de Nova York (NYU, na sigla em inglês).

O microbioma é formado pelas bactérias e outros microorganismos que habitam o corpo humano e que evoluíram com o homem.

Os cientistas consideram especialmente surpreendente que o microbioma deste grupo indígena tenha genes resistentes aos antibióticos, já que acredita-se que os yanomami nunca estiveram expostos a antibióticos comerciais.

“Estas revelações complementam os testes que sugerem que a ocidentalização está associada com a perda da diversidade bacteriana, ao mesmo tempo em que sugerem que os genes equipados para resistir aos antibióticos podem ser uma característica natural do microbioma humano”, apontou o estudo.

Embora hoje existam mais provas científicas de que o microbioma cumpre uma função importante na saúde do ser humano, há poucos estudos sobre como a composição das comunidades bacterianas do humano mudou à medida que se adotou amplamente a dieta e o estilo de vida do Ocidente em outras partes do mundo.

“O estudo das povoações alheias às práticas do Ocidente pode ajudar os pesquisadores a caracterizar os microbiomas que mais se assemelham aos de nossos antecessores e a entender os benefícios de alojar uma diversidade microbiana extensa”, destacaram os pesquisadores.

Milhares de anos depois, os yanomamis seguem vivendo um estilo de vida parcialmente nômade como caçadores-coletores na selva do Amazonas da Venezuela e do Brasil.

Em 2008, um helicóptero militar avistou uma aldeia yanomami nunca antes identificada em mapas e, depois de um ano, uma missão médica aterrissou ali e obteve amostras de matéria fecal, cutâneas e bucais de 34 pessoas (de entre quatro e 50 anos).

Apenas um dos autores do artigo, Oscar Noya, visitou a aldeia dos yanomami durante a obtenção de amostras em 2009.

Os pesquisadores analisaram o DNA microbiano destas amostras e encontraram uma diversidade bacteriana consideravelmente maior, não só em comparação com um grupo de pessoas de origem americana, mas com amostras de dois grupos que não procedem do Ocidente, mas com exposição limitada às práticas ocidentais.

Algumas das bactérias presentes em um nível maior nos yanomami demonstraram ter efeitos benéficos para a saúde, como ajudar a evitar a formação de cálculos nos rins.

Apesar de não haver tido nenhuma exposição documentada a antibióticos comerciais, as amostras de matéria fecal dos yanomami continham E. coli com genes funcionais resistentes aos antibióticos, inclusive aqueles que oferecem resistência a remédios sintéticos.

Domínguez-Belo e seus companheiros sugerem que esses genes poderiam ter se originado de uma troca entre a microbiota humana e as bactérias na terra, onde se acham genes resistentes aos antibióticos.

“Os resultados enfatizam o valor de caracterizar os microbiomas das pessoas com estilos de vida ancestrais antes que se perca a diversidade microbiana. Ao fazê-lo, é possível encontrar micróbios com valor terapêutico para diferentes transtornos imunitórios”, conclui o estudo.

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