ZIKA VÍRUS

Apesar de expansão do zika, entidade pede respeito ao direito de engravidar

As crianças com microcefalia podem apresentar problemas de desenvolvimento e, em geral, não há tratamento para a doença. Mas a intervenção antecipada pode ajudar a melhorar a qualidade de vida dos afetados pelo problema.

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Apesar de expansão do zika, entidade pede respeito ao direito de engravidar

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) pediu no último sábado (30) a ampliação do acesso a anticoncepcionais na América Latina diante da expansão do zika vírus, mas defendeu que a decisão de engravidar é um direito exclusivo da mulher.

“Pedir que as mulheres não fiquem grávidas não pode ser uma recomendação. Os países devem informar dos riscos, mas a decisão é só da mulher, é seu direito”, disse em entrevista à Agência Efe a diretora do Centro Latino-Americano de Perinatologia, Saúde da Mulher e Reprodução da OPS, Suzanne Serruya.

Porto Rico, Equador, Colômbia, República Dominicana, Jamaica, Honduras e Panamá já pedirão a suas cidadãs que não fiquem grávidas enquanto houver a presença do zika vírus em seus territórios. Já El Salvador recomendou que as mulheres deixem o desejo de ter filhos de lado por pelo menos dois anos.

“Não sabemos quanto tempo vai durar. O que vai ocorrer se em dois anos (a epidemia) estiver pior? Essa não é a solução. É preciso trabalhar para eliminar o vetor (o mosquito transmissor) e para que as mulheres tenham um maior acesso à contracepção”, afirmou a especialista da OPS.

O pedido de “adiamento” da gravidez surpreendeu e irritou organizações que defendem os direitos reprodutivos femininos. As entidades avaliam que esse tipo de medida transfere a responsabilidade à mulher, sem fornecer alternativas.

“É ingênuo e insuficiente. Essa crise põe em evidência os grandes vazios das políticas nacionais da região em educação sexual e no acesso aos anticoncepcionais e ao aborto”, disse à Efe a vice-presidente de Estratégia da Women’s Link Worldwide, Mónica Roa.

Mónica destacou o fato de um país como El Salvador, onde muitas mulheres não têm acesso à métodos contraceptivos e o aborto é proibido em qualquer circunstância, de pedir que suas cidadãs não fiquem grávidas nos dois próximos anos.

“Na Colômbia, quando o ministro fez a recomendação, muitas mulheres entenderam que ele pedia que elas não fizessem sexo por seis meses. Muitas mulheres não sabem onde conseguir anticoncepcionais, não podem pagar por eles ou têm companheiros que não permitem que elas os usem”, explicou a especialista.

Pedido bom ou ruim?

Esse tipo de pedido é um desafio em um continente no qual calcula-se que 56% das gravidezes não são planejadas. Nesse índice estão casos de falta de acesso a anticoncepcionais, de seu mau uso ou falha, além de carências na educação sexual ou estupros.

“O que mais nos preocupa é o acesso aos métodos contraceptivos. Em todos os países da região, ele é diferente em razão dos níveis de pobreza. O acesso pode variar entre 47% e 7%, segundo regiões e bairros”, afirmou a especialista da OPS.

As mulheres pobres estão em uma situação de dupla vulnerabilidade contra o zika: vivem nas zonas onde há mais risco de contágio por causa da incidência do mosquito e são as que têm menos acesso aos anticoncepcionais e à educação sexual.

“Essa deveria ser uma oportunidade para que os países melhorem seus serviços de planejamento familiar”, indicou Serruya.

O zika gerou preocupação por causa de sua possível vinculação, ainda não confirmada oficialmente, com a microcefalia. No Brasil, teme-se que a doença esteja associada aos quase 4.200 casos de bebês com microcefalia. Já na Colômbia, estima-se que 500 crianças nascerão com esse transtorno neurológico.

As crianças com microcefalia podem apresentar problemas de desenvolvimento e, em geral, não há tratamento para a doença. Mas a intervenção antecipada pode ajudar a melhorar a qualidade de vida dos afetados pelo problema.

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