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Wilze Bruscato, Psicóloga discorre sobre depressão e suicídio

Para a especialista, incapacidade dos jovens em lidar com frustrações são principal motivo do aumento do suicídio e da depressão

Imagem cedida por Wilze Bruscato Imagem cedida por Wilze Bruscato

No último Dia Mundial da Saúde, a OMS destacou a depressão como um dos males graves da atualidade. Pode terminar no suicídio, segunda maior causa de mortalidade entre jovens de 15 a 29 anos, que tem sido muito abordado nas discussões cotidianas e midiáticas, em resposta, também, ao sucesso recente de uma série de TV cujo foco é o suicídio de uma personagem.

A pauta ganhou novo impulso no Brasil com as investigações de suicídios relacionados a um jogo chamado “Baleia Azul”, que instiga jovens com transtornos emocionais a executarem “tarefas” ligadas à automutilação e ao isolamento, como ferir-se voluntariamente, até chegar ao ponto de tirar a própria vida.

Assim, “Baleia Azul”, depressão e suicídio têm sido alvos de uma extensa preocupação de pais e especialistas, tanto pela gravidade que tem alcançado no mundo atual, como pelo potencial de banalização de algo tão sério, quando o debate é baseado em meros achismos e opiniões.

Para esclarecer o tema, o EFE Saúde conversou com a psicóloga Wilze Laura Bruscato, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Como a senhora interpreta a discussão a respeito do jogo “Baleia Azul”?

O “Baleia Azul” é um jogo que envolve desafios que culminam no suicídio. Em geral, atrai jovens e adolescentes que encontram-se isolados, por estar relacionado à tristeza e ao mundo virtual, com o qual têm afinidade. Creio que a abordagem que vem sendo dada ao tema é incorreta, já que foca no jogo em si, que é uma simples manifestação de um problema maior.

Qual é esse problema maior?

As pessoas que cometeram suicídio não o cometeram apenas por causa do jogo; ele é apenas a maneira que encontraram de canalizar o desespero que sentiam. Os meios para canalizar esse sentimento podem ser diversos: hoje é a “Baleia Azul”, amanhã pode ser outra coisa. A questão real a qual a sociedade deve estar alerta é o sentimento dos jovens, atentando-se a possíveis perturbações que estejam sentindo, auxiliando no lidar com as tristezas cotidianas e incentivando o tratamento à depressão.

O tema da depressão e do suicídio tem sido muito abordado nas discussões cotidianas, midiáticas e oficiais. Exemplos disso são o último Dia Mundial da Saúde e a série “13 reasons why”. A senhora acredita que a geração atual está mais suscetível a tudo isso?

A grande relevância do tema é reflexo do aumento dos casos de suicídio e depressão na atualidade. Creio que os jovens de hoje estão mais propensos a esses sofrimentos do que os do passado, por dois motivos principais: primeiro, nós vivemos uma época muito agitada, com intensas modificações culturais e sociais, tornando a absorção do mundo muito mais difícil do que antigamente; segundo, entendo que os pais vêm adotando ao longo dos últimos anos um tipo de criação na qual a autoridade é pouco exercida, não no sentido de autoritarismo, mas de uma autoridade boa e saudável. Desse modo, os adolescentes ficam perdidos, sem qualquer tipo de monitoramento.

Os pais têm culpa dessa ausência de autoridade?

Não gosto de usar a palavra “culpa”, prefiro o termo “responsabilidade”. A falta da boa autoridade deixa os jovens dispersos, além de estimular comportamentos que não são saudáveis, como gastar muito tempo na internet ou passar boa parte do dia fechado no quarto. Antes, os jovens corriam perigo quando saíam de casa para jogar bola, por exemplo. Hoje, o perigo está dentro de casa, e envolve fatores que muitas vezes os pais e os filhos não entendem. O equilíbrio é essencial.

Quais consequências isso projeta nos jovens?

Esse isolamento da família e do mundo real prejudica os jovens na questão de como lidar com as tristezas. A geração atual parece não entender que ficar triste, assim como ficar alegre, são emoções naturais da vida humana, com as quais todos temos que lidar, e que são passageiras. Assim, sente-se desesperada e desamparada, por acreditar que é vital estar sempre feliz. Contudo, em nossa condição humana, é impossível sentirmos um bem estar constante e perene.

Podemos afirmar que a depressão é um mal generalizado da juventude?

Primeiramente, é importante distinguir depressão de incapacidade de lidarmos com tristezas e frustrações. Depressão é uma doença que deve ser tratada, mas não é comum à toda humanidade. Por outro lado, todas as pessoas, em alguma fase de suas vidas, sentem-se tristes. O problema da juventude é o de não ter aprendido a enfrentar suas decepções, embora não possamos dizer que isso seja algo generalizado.

Tratar tudo como depressão ajuda a banalizar a doença?

Acredito que todo esse alarde pode confundir as pessoas quanto à distinção entre depressão, que é uma doença, e as consequências de um “caldo cultural” que tornam momentos de tristeza insuportáveis.

Quais são os sinais apresentados pelos jovens a que os pais e responsáveis devem ficar atentos?

Entre os sinais mais comuns, que indicam dificuldade em lidar com as emoções, estão a agressividade, o silêncio excessivo, a ausência ou diminuição de um círculo de amizades e alterações bruscas na alimentação, sejam para mais ou para menos, entre outros. É importante lembrar que algumas pessoas são mais recolhidas do que outras, o que é normal, porém, é necessário estar atento aos excessos.

Ao perceber que uma criança, adolescente ou jovem está sofrendo, qual a melhor atitude a ser tomada?

Identificando problemas no comportamento dos jovens, os pais devem procurar aproximar-se dos filhos, oferecendo coisas interessantes além dos limites do quarto e do mundo virtual. Por exemplo, muitos pais entregam tablets e celulares para os filhos esperando que eles não importunem e não façam perguntas. Essa atitude é péssima para eles. Também é muito importante que procurem ajuda, em especial de um psicólogo, tanto para a criança como para os próprios pais, no que concerne à postura que deve ser adotada. É preciso gritar, procurar ajuda, antes que as coisas fiquem mais graves.

Wilze Laura Bruscato, professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Acessibilidade Institucional da Faculdade. É psicóloga com formação em Psicanálise, especialista em Psicologia Clínica,  Psicose e Estratégias Institucionais, mestre em Saúde Mental e doutora em Ciências da Saúde.

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No último Dia Mundial da Saúde, a OMS destacou a depressão como um dos males graves da atualidade. Pode terminar no suicídio, segunda maior causa de mortalidade entre jovens de 15 a 29 anos, que tem sido muito abordado nas discussões cotidianas e midiáticas, em resposta, também, ao sucesso recente de uma série de TV cujo foco é o suicídio de uma personagem.

A pauta ganhou novo impulso no Brasil com as investigações de suicídios relacionados a um jogo chamado “Baleia Azul”, que instiga jovens com transtornos emocionais a executarem “tarefas” ligadas à automutilação e ao isolamento, como ferir-se voluntariamente, até chegar ao ponto de tirar a própria vida.

Assim, “Baleia Azul”, depressão e suicídio têm sido alvos de uma extensa preocupação de pais e especialistas, tanto pela gravidade que tem alcançado no mundo atual, como pelo potencial de banalização de algo tão sério, quando o debate é baseado em meros achismos e opiniões.

Para esclarecer o tema, o EFE Saúde conversou com a psicóloga Wilze Laura Bruscato, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Como a senhora interpreta a discussão a respeito do jogo “Baleia Azul”?

O “Baleia Azul” é um jogo que envolve desafios que culminam no suicídio. Em geral, atrai jovens e adolescentes que encontram-se isolados, por estar relacionado à tristeza e ao mundo virtual, com o qual têm afinidade. Creio que a abordagem que vem sendo dada ao tema é incorreta, já que foca no jogo em si, que é uma simples manifestação de um problema maior.

Qual é esse problema maior?

As pessoas que cometeram suicídio não o cometeram apenas por causa do jogo; ele é apenas a maneira que encontraram de canalizar o desespero que sentiam. Os meios para canalizar esse sentimento podem ser diversos: hoje é a “Baleia Azul”, amanhã pode ser outra coisa. A questão real a qual a sociedade deve estar alerta é o sentimento dos jovens, atentando-se a possíveis perturbações que estejam sentindo, auxiliando no lidar com as tristezas cotidianas e incentivando o tratamento à depressão.

O tema da depressão e do suicídio tem sido muito abordado nas discussões cotidianas, midiáticas e oficiais. Exemplos disso são o último Dia Mundial da Saúde e a série “13 reasons why”. A senhora acredita que a geração atual está mais suscetível a tudo isso?

A grande relevância do tema é reflexo do aumento dos casos de suicídio e depressão na atualidade. Creio que os jovens de hoje estão mais propensos a esses sofrimentos do que os do passado, por dois motivos principais: primeiro, nós vivemos uma época muito agitada, com intensas modificações culturais e sociais, tornando a absorção do mundo muito mais difícil do que antigamente; segundo, entendo que os pais vêm adotando ao longo dos últimos anos um tipo de criação na qual a autoridade é pouco exercida, não no sentido de autoritarismo, mas de uma autoridade boa e saudável. Desse modo, os adolescentes ficam perdidos, sem qualquer tipo de monitoramento.

Os pais têm culpa dessa ausência de autoridade?

Não gosto de usar a palavra “culpa”, prefiro o termo “responsabilidade”. A falta da boa autoridade deixa os jovens dispersos, além de estimular comportamentos que não são saudáveis, como gastar muito tempo na internet ou passar boa parte do dia fechado no quarto. Antes, os jovens corriam perigo quando saíam de casa para jogar bola, por exemplo. Hoje, o perigo está dentro de casa, e envolve fatores que muitas vezes os pais e os filhos não entendem. O equilíbrio é essencial.

Quais consequências isso projeta nos jovens?

Esse isolamento da família e do mundo real prejudica os jovens na questão de como lidar com as tristezas. A geração atual parece não entender que ficar triste, assim como ficar alegre, são emoções naturais da vida humana, com as quais todos temos que lidar, e que são passageiras. Assim, sente-se desesperada e desamparada, por acreditar que é vital estar sempre feliz. Contudo, em nossa condição humana, é impossível sentirmos um bem estar constante e perene.

Podemos afirmar que a depressão é um mal generalizado da juventude?

Primeiramente, é importante distinguir depressão de incapacidade de lidarmos com tristezas e frustrações. Depressão é uma doença que deve ser tratada, mas não é comum à toda humanidade. Por outro lado, todas as pessoas, em alguma fase de suas vidas, sentem-se tristes. O problema da juventude é o de não ter aprendido a enfrentar suas decepções, embora não possamos dizer que isso seja algo generalizado.

Tratar tudo como depressão ajuda a banalizar a doença?

Acredito que todo esse alarde pode confundir as pessoas quanto à distinção entre depressão, que é uma doença, e as consequências de um “caldo cultural” que tornam momentos de tristeza insuportáveis.

Quais são os sinais apresentados pelos jovens a que os pais e responsáveis devem ficar atentos?

Entre os sinais mais comuns, que indicam dificuldade em lidar com as emoções, estão a agressividade, o silêncio excessivo, a ausência ou diminuição de um círculo de amizades e alterações bruscas na alimentação, sejam para mais ou para menos, entre outros. É importante lembrar que algumas pessoas são mais recolhidas do que outras, o que é normal, porém, é necessário estar atento aos excessos.

Ao perceber que uma criança, adolescente ou jovem está sofrendo, qual a melhor atitude a ser tomada?

Identificando problemas no comportamento dos jovens, os pais devem procurar aproximar-se dos filhos, oferecendo coisas interessantes além dos limites do quarto e do mundo virtual. Por exemplo, muitos pais entregam tablets e celulares para os filhos esperando que eles não importunem e não façam perguntas. Essa atitude é péssima para eles. Também é muito importante que procurem ajuda, em especial de um psicólogo, tanto para a criança como para os próprios pais, no que concerne à postura que deve ser adotada. É preciso gritar, procurar ajuda, antes que as coisas fiquem mais graves.

Wilze Laura Bruscato, professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Acessibilidade Institucional da Faculdade. É psicóloga com formação em Psicanálise, especialista em Psicologia Clínica,  Psicose e Estratégias Institucionais, mestre em Saúde Mental e doutora em Ciências da Saúde.

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